A espiritualidade quaresmal

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Vivemos um dos tempos mais fortes do ano litúrgico, um período que se inicia na quarta-feira de Cinzas nos preparando para a celebração do mistério central de nossa fé, evidenciado no tríduo pascal. A quaresma é, por assim dizer, um tempo excelso de conversão, revisão de vida, exame de consciência de forma mais incisiva, enfim, um tempo de volta efetiva para o Pai, de todo o coração.

Trata-se de uma pedagogia interessante que a Igreja nos faz experimentar, como um tempo dedicado a um combate mais denso contra as nossas más tendências, clamando ao Senhor que sempre sejamos atraídos para Ele, a fim de que não nos destruam nossas más inclinações.

Para tanto, a Santa Madre Igreja, sabiamente, como Mãe e Mestra que é, nos propõe as chamadas práticas quaresmais, que constituem como que armas espirituais para o combate a ser travado, “não contra homens de carne e sangue, mas contra as forças espirituais do mal espalhadas nos ares” (Ef 6, 12). Tais práticas exortadas pelo Senhor no Sermão da Montanha (Mt 6) não são frutos de uma mera escolha de Cristo a nos indicar, mas existe todo um fundamento espiritual para que o Senhor nos recomende a praticar o Jejum, a Esmola e a Oração.

Todo este fundamento começa no livro de Gênesis (Gn 2), quando a mulher é seduzida pela serpente acerca do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal. Pois “a mulher, vendo que o fruto da árvore era bom para comer, de agradável aspecto e mui apropriado para abrir a inteligência, tomou dele, comeu e apresentou ao seu marido que comeu igualmente” (Gn 2, 6). Três aspectos são observados aqui: Bom para comer, vistoso ao olhar e ideal para obter conhecimento, no sentido de que o conhecimento te leva a obter autoridade, poder sobre algo ou alguém.

São João faz lembrar esta passagem do gênesis na sua 1ª epístola: “Porque tudo o que há no mundo – a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida – não procede do Pai, mas do mundo” (I Jo 2, 16).

Da mesma forma, percebemos este mesmo ensinamento na tentação que o Senhor sofreu no deserto, por Satanás, como que recapitulando estes mesmos princípios observados no gênesis e que são João viria posteriormente a ratificar. No deserto, o Senhor é tentado inicialmente pelo demônio: “Se és o Filho de Deus, ordena a esta pedra que se torne pão” (Lc 4, 3). O demônio tenta o Senhor, utilizando o princípio da concupiscência da carne. “Em seguida, o demônio levou-o a um monte e mostrou-lhe todos os reinos da terra., e disse-lhe: ‘dar-te-ei todo este poder e a glória destes reinos, porque me foram dados e dou-os a quem quero. Portanto, se te prostrares diante de mim, tudo será teu’” (Lc 4, 5-7). Eis a tentação posta pelo demônio, e que se relaciona com a concupiscência dos olhos, retratado por São João (I Jo 2,16). “Por fim, o demônio levou-o ainda a Jerusalém ao ponto mais alto do templo e disse-lhe: ‘Se és o Filho de Deus, lança-te daqui abaixo’” (Lc 4, 9). Esta é a tentação relacionada à soberba da vida, ao poder, o qual o Senhor renuncia.

Como resposta às tentações que o Senhor sofreu no deserto,  os Padres da Igreja, a exemplo de São Gregório Magno, identificam os fundamentos espirituais das práticas quaresmais.  O jejum mortifica a concupiscência da carne. A esmola mortifica a concupiscência dos olhos. A oração mortifica a soberba da vida.

A concupiscência da carne é toda realidade voltada aos prazeres carnais, ilícitos da criatura, haja vista que a alma humana se encontra numa desordem, ferida que foi pelo pecado original. Ela, que deveria governar o homem, controlando, inclusive, os impulsos do corpo, deixa-se governar pelos desejos e sensações carnais. O jejum, portanto, modera essa fuga da dor e busca pelo prazer, disciplinando a alma a fim de que ela domine suas paixões. Eis o motivo que a Igreja na sua pedagogia nos disciplina quanto à abstenção de carne em todas as sextas-feiras do ano com o intento de refrear tais impulsos, recomendando, inclusive, vivamente o jejum neste tempo quaresmal.

Por outro lado, a concupiscência dos olhos se relaciona com o desejo de possuir as coisas por sua beleza, ou pelo que ela causa em nosso interior. Lembremos a 2ª tentação do Senhor em que lhe foi apresentado todos os reinos. Satanás queria tentar o Senhor quanto ao olhar. E quantas vezes enchemos os olhos diante das realidades que nos são apresentadas? A vitrine de um shopping, a beleza de uma paisagem, porque o homem tem o desejo de conhecer a Verdade. Com o pecado, também houve uma desordem no seu interesse em conhecer as coisas, de modo que, em vez de querer possuir a Verdade, o homem quer possuir tudo o que é supérfluo, achando que ali está a felicidade. O que irá encontrar será apenas frustração, quando perceberá que aquilo não sacia. Apenas o conhecimento de Deus sacia. O desejo de possuir o supérfluo leva-o ao vazio. Por isso, a esmola como exercício de desapego e abnegação para combater esta concupiscência dos olhos.

Por fim, a soberba da vida. O pecado original manchou o ser humano com o vício diabólico do orgulho, essa atitude de achar-se suficiente. Para combatê-lo, o método mais eficaz é a oração. Pela oração reconhecemos a nossa miséria, e nos colocamos como que dependentes de Deus, percebendo em nós a nossa debilidade e incapacidade para o bem, “porque sem mim nada podeis fazer” (Jo 15,5). Percebemos que só podemos algo se nos conformarmos à vontade do Altíssimo, pois somos mendigos, ao mesmo que tempo que declaramos que “tudo posso naquele que me fortalece” (Fl 4,13).

A Quaresma, de fato, é um itinerário, um retiro, que causa em nosso interior, uma verdadeira Metanoia, uma mudança de vida, de mentalidade, de rota, rumo a uma conversão sincera, que prepara o coração para o ápice da espiritualidade cristã, que corresponde ao tremendo Mistério da Paixão, Morte e Ressurreição do Senhor. Aproveitemos deste tempo riquíssimo e colhamos os frutos espirituais advindos desta experiência transformadora.

 

Por: Romero Frazão, fvc

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